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Laureado

24/07/2010 Ana Elisabeth Santos de Oliveira Lima


Laureado

08/12/2007

por Paulo Ghiraldelli Jr.

Há uma garotada por aí, hoje em dia, com o título de doutor em educação. Ninguém sabe se conseguem dizer mais que duas linhas a respeito de Lauro de Oliveira Lima. Há quem diga que nem mesmo uma linha eles saibam escrever sobre o profeta cearense da educação. Existem ainda os mais decepcionados, que afirmam que essa garotada não consegue escrever mais de duas linhas a respeito de qualquer outra coisa. Bem, isso valeria de consolo amargo para Lauro. Ele foi esquecido, certamente, mas todos os outros também foram esquecidos, simplesmente porque nossos professores universitários já não sabem nada de história da educação e, de certo modo, de história em geral. Mas, convenhamos, que consolo realmente terrível este, não?

Lauro de Oliveira Lima foi o homem que leu Piaget no Brasil. Leu mesmo. Leu, entendeu e aplicou. Não transformou Piaget em cartilha de governo. Transformou Piaget em combustível para fazer o aeroplano de sua imaginação voar. E ela não só voou fazendo-o bom “formador de professores”, ela abriu asas para transformá-lo no maior visionário dos escritores brasileiros na área educacional. Eu o colocaria na seguinte galeria: Fernando de Azevedo foi o cientista, Anísio Teixeira foi o industrioso, Paulo Freire foi o militante do Céu, Dermeval Saviani foi o formador e, enfim, Lauro de Oliveira Lima foi o … o louco!

Lauro revolucionou a escrita educacional e pedagógica. Ele inaugurou uma forma própria de escrever, um pouco inspirado, talvez, por certas maneiras da “pop art” e de concretismo. Sua escrita misturava ideografia e iconografia. Fazia onomatopéias em livros “sérios”. Colocava Piaget para andar. Andar sobre dois pés. Mas quando estava enfurecido, colocava Piaget para andar de quatro. Mas não só. Chamava McLuhan para galopar em um Piaget que rastejava pelas bordas de seus livros.

Lauro escreveu um dos mais brilhantes livros de história da educação brasileira que já li, com um subtítulo fantástico: “de Pombal a Passarinho”. Todavia, o melhor livro de Lauro, aquele que mais identifica o pensador do nordeste do Brasil com o que ele realmente se propôs a ser, foi Mutações em educação segundoMcluhan, do início dos anos 70. É um opúsculo. E talvez o próprio professor Lauro não concorde comigo sobre a importância desse livro no conjunto de sua obra. Mas, ele que me desculpe, pois é ali que está o louco.

E para que se entenda bem o termo louco, aqui, vou lembrar que Platão dizia, para descrever Diógenes, o cínico, que ele era “Sócrates, porém, tornado louco”. Lauro escreveu um pouco como os vários autores bons da educação brasileira, que citei, mas ele tinha um approach do visionário, do profeta. Nesse seu livrinho, ele descreveu exatamente, em detalhes, o mundo educacional sob o impacto da Internet e de toda a revolução que estamos vivendo. E isso quando tudo era sonho, menos a Internet, que era inimaginável. E ele se lamentava que o professor ainda estivesse em uma era pré-Gutemberg, o professor ainda ia para o quadro negro para “passar matéria”. Não conhecia o livro! Ele disse isso há quarenta anos. Agora, Lauro está com mais de oitenta anos. Deve estar irritadíssimo em saber que chegou ao futuro meio século na frente de todos, e mais bravo ainda em saber que agora, que o futuro chegou, os educadores e ministros da educação ainda vão demorar mais meio século para vislumbrar o que ele falou nos anos sessenta e setenta.

Hoje em dia quem ouviu falar no “Manifesto dos Pioneiros da Educação” (1932) já pode ser Ministro da Educação ou coordenador de programa de pós-graduação. Pode até ser coordenador da CAPES. Vivemos em uma época triste para o Brasil. Então, nem pensamos mais em sonhar. Sendo assim, cabeças como a de Lauro, que a pouco tempo perdiam espaço para técnicos sociologizantes, agora nem mais tem espaço para perder. Os sociólogos saíram, entraram os sindicalistas! Mas Lauro escreveu o que tinha de melhor para escrever quando nem sociólogos nem sindicalistas estavam no MEC ou nas universidades. Ele escreveu suas profecias quando os militares estavam abarrotando o MEC de técnicos em tudo, que eram técnicos em nada. Foi uma época parecida com a de agora, do ponto de vista do restrito trabalho do MEC em relação à educação: “muito barulho por nada”.

Nessa época, Lauro ousou colocar os revolucionários de todas as ordens para empurrar Piaget. Escreveu sobre Illich e, praticamente, adiantou o que Lyotard, logo depois, escreveria a respeito de abordagens mais heterodoxas que vigorariam com a “condição pós-moderna”.

Não me sinto envergonhado perante Lauro. Nunca deixei de consagrar a ele um capítulo em meus manuais de história ou filosofia da educação brasileira. Eu nunca fui mal agradecido ou bobo. Eu me esforcei, na juventude, para entender Lauro – eu sabia que ele estava falando de um mundo que talvez eu fosse viver. E estou vivendo nesse mundo agora. É pena que meu país não nos tenha acompanhado.

Paulo Ghiraldelli Jr. “o filósofo da cidade de São Paulo”.

pgjr23@yahoo.com.br [Escute outros no podcast]



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