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Monteiro Lobato: a renitente imbecilidade da censura

06/11/2010 Ana Elisabeth Santos de Oliveira Lima


Deu na Mídia:

Livro de Monteiro Lobato pode ser vetado

por conteúdo racista

Conselho Nacional de Educação aprova parecer de especialista de Minas que identificou conteúdo 'racista' em um dos clássicos do consagrado autor brasileiro. Recomendação é de que o MEC retire obra das prateleiras das bibliotecas de escolas públicas

Gustavo Werneck, Júnia Oliveira e Flávia Ayer - Estado de Minas

Publicação: 30/10/2010 07:53 Atualização: 30/10/2010 12:53

(a matéria completa ao final de meus comentários)

Proibir Lobato! Chegamos ao máximo do obscurantismo. Como é que, num país onde ler é tão difícil (caro, sem acesso facilitado, com poucas bibliotecas a maioria mal equipadas), alguém ainda pensa em censurar algo de tão precioso, resultado do trabalho de um dos maiores gênios da literatura brasileira. O que mais se ouviu nas eleições presidenciais que terminaram agora, no segundo turno, foi a comemoração de mais um “festa da democracia”, mas o brilho dessa festa fica empanado por uma atitude como essa.

As crianças do Brasil e do mundo precisam de Lobato. O que é um preconceito? Ninguém deste conselho sabe? Estudaram o que é a Moral? Como cada criança vê o mundo que a cerca?

Até os 4/5 anos, as crianças têm todos os preconceitos e esses devem ser trabalhados de forma competente para que sejam superados. Sendo Monteiro Lobato o escritor mais completo de nossa literatura, fala de todos os temas de maneira simples e agradável e, realmente, só quem não conhece sua obra pode dar sentido diferente àquilo que foi tão bem escrito. Por exemplo, Emilia funciona como um alter ego do grupo, e faz este papel – magistralmente montado pelo autor - para discutir todos os temas polêmicos e provocar situações de discussão e debate crítico. Acho que isso não é visto na obra de outros autores pela falta de coragem de discuti-los. São questões polêmicas ainda hoje, e imagine na época em que foram escritas!

Dona Benta é a mediadora do espírito critico e impulsivo representado pela Emilia. Tia Nastácia representa o povo, com suas opiniões sábias e as vezes humildes, mas com a força da participação ativa é ela quem traz ao leitor as lendas e histórias populares do Brasil.

Monteiro Lobato foi renegado por muitos e muitos anos sob a pecha de ser comunista. Saiu do país, foi preso mas continuou sua luta. Brigou pela Petrobras criando o slogan que se tornou o brado de alerta contra a entrega de nosso patrimônio: “o petróleo é nosso”. Um herói nacional, um gênio literário, um homem que conseguiu mergulhar como ninguém no universo infantil e que é agora vetado às crianças! Acho que este “conselho de não sei o quê” deveria primeiro ler toda a obra do genial Lobato, para poder emitir alguma opinião. Quando, em 1972, iniciamos a escola A Chave do Tamanho - nome baseado no livro de Lobato que mostra para as crianças o que foi a 2ª. Guerra mundial - e adotamos seus livros como literatura básica da escola, passamos a chamar de “Livro do Recanto” todos aqueles que eram e são lidos a vida escolar conosco. Cada livro é trabalhado durante o semestre, acompanhado de fichas de leitura para que todos possam tirar o máximo de aproveitamento do trabalho deste grande autor. Fomos nesta época criticados e atacados, mas estávamos na ditadura militar. Mas e agora?

Lobato usa a Emilia para discutir tudo e não obedecer a nenhuma norma vigente. Tudo que ela fala deve ser discutido com as crianças em dinâmica de grupo, como todos os textos deveriam ser. Lobato fala das fantasias, da mitologia, da guerra, da natureza, geografia, historia da humanidade, da aritmética, da gramática e principalmente das relações interpessoais da família.

O que nos preocupa, e deve preocupar todos que tem responsabilidade com a Educação, Cultura, Literatura, Ciência, Psicologia e outras áreas do conhecimento é se a “Caça às Bruxas” vai se tornar ampla, abrangendo autores internacionais também. Só para manter na lembrança, a Igreja Católica já teve o seu Index Librorum Prohibitorum, ou "Lista dos Livros Proibidos" e que foi uma lista de publicações proibidas pela Igreja Católica, de "livros perniciosos" contendo ainda as regras da igreja relativamente a livros. A trigésima-segunda edição, publicada em 1948, continha 4 000 títulos censurados por várias razões: heresia, deficiência moral, sexualidade explícita, incorreção política, etc. Em determinados momentos da história obras de cientistas, filósofos, enciclopedistas ou pensadores como Galileu Galilei, Nicolau Copérnico,Giordano Bruno, Nicolau Maquiavel, Erasmo de Roterdão, Baruch de Espinosa, John Locke, Berkeley, Denis Diderot, Blaise Pascal, Thomas Hobbes, René Descartes, Rousseau, Montesquieu, David Hume ou Immanuel Kant tenham pertencido a esta lista, sendo algumas dessas tendo sido removidas mais tarde. (fonte WIKIPÉDIA).

É fácil começar um movimento de proibição, se não houver reação a altura por parte daqueles que acreditam na liberdade de expressão e no importante legado deixado por esses fantásticos pensadores, em benefício da humanidade.

Não vamos acabar com preconceitos a partir de atitudes espúrias. O que vai fazer frente à intolerância é o desenvolvimento da MORAL, e é isso que atualmente não está sendo feito pelas escolas, sejam elas particulares – onde os pais estão cobrando uma posição a respeito – e principalmente nas públicas, onde não se vê uma política concreta que privilegie o verdadeiro ato de educar, na sua acepção total. O melhor conselho que posso dar a esse “Conselho” é não perder tempo com bobagens como essas que estão tentando impingir a todos nós, e ao invés disso, buscar elementos para fazer alguma coisa de útil para essa Educação tão deficitária que recebem os brasileiros. O resto é falta do que fazer.

Vamos lutar para que todas as escolas públicas do Brasil tenham uma coleção completa de Monteiro Lobato, para que as crianças possam conhecer esse grande autor e incansável patriota. Vamos escrever para nossos dirigentes, para os membros da Academia Brasileira de Letras, para o Ministro da Educação e mesmo para a nossa recém-eleita Presidente da República, que como mulher, mãe e avó certamente sabe a importância da leitura para a formação de um povo e reconhece a importância de Monteiro Lobato para o nosso Brasil.

Beta

PARA QUEM NÃO LEU A MATÉRIA, MOTIVO DESSE POST, SEGUE ABAIXO:

Livro de Monteiro Lobato pode ser vetado por conteúdo racista

Conselho Nacional de Educação aprova parecer de especialista de Minas que identificou conteúdo 'racista' em um dos clássicos do consagrado autor brasileiro. Recomendação é de que o MEC retire obra das prateleiras das bibliotecas de escolas públicas

Gustavo Werneck, Júnia Oliveira e Flávia Ayer - Estado de Minas

Publicação: 30/10/2010 07:53 Atualização: 30/10/2010 12:53

No Dia Nacional do Livro, celebrado nesta sexta-feira, um dos maiores clássicos da literatura infantojuvenil brasileira – Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato (1882-1948), paulista de Taubaté – entra para a lista de vetados pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) e corre o risco de ser retirado das bibliotecas escolares. Conforme parecer da conselheira e professora da Faculdade de Educação da UFMG Nilma Lino Gomes, a obra, publicada em 1933, que narra as aventuras da turma do Sítio do Pica-pau Amarelo em busca de uma onça-pintada, tem conteúdo racista. Os alvos principais seriam a personagem Tia Nastácia e alguns animais, como o urubu e o macaco. A polêmica começou no Distrito Federal, e a proibição valerá para todo o país, se o relatório do CNE for homologado pelo ministro da Educação, Fernando Haddad.

O parecer de Nilma, que provoca indignação no meio cultural, foi aprovado por unanimidade pela Câmara de Educação Básica/CNE e elaborado a partir de denúncia da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial. Na próxima quinta-feira, no Rio de Janeiro (RJ), a Academia Brasileira de Letras (ABL) vai se reunir em plenária para discutir a questão e fazer um pronunciamento, segundo informou o presidente da instituição, Marcos Vinicios Vilaça.

De acordo com o relato de Nilma, "é essencial considerar o papel da escola no processo de educação e reeducação das relações raciais, a fim de superar o racismo, a discriminação e o preconceito racial. A despeito do importante caráter literário da obra de Monteiro Lobato, o qual não se pode negar, é necessário considerar que somos sujeitos da nossa própria época, porém, ao mesmo tempo, somos responsáveis pelos desdobramentos e efeitos das opções e orientações políticas, pedagógicas e literárias assumidas no contexto em que vivemos".

Nilma escreveu ainda que "a literatura em sintonia com o mundo não está fora dos conflitos, das tensões e das hierarquias sociais e raciais, nas quais o trato à diversidade se realiza. São situações que estão presentes nos textos literários, pois esses fazem parte da vida real. A ficção não se constrói em um espaço social vazio". O livro foi distribuído pelo MEC a instituições de ensino fundamental pelo Programa Nacional de Biblioteca na Escola (PNBE). Em nota técnica citada pelo CNE, a Secretaria de Alfabetização e Diversidade do MEC diz que a obra só deve ser usada "quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil".

IDEIA INFELIZ Admirador de Lobato, de quem leu toda a obra na juventude, o secretário geral da Academia Mineira de Letras (AML), Aloísio Garcia, considera ideia infeliz pensar em proibir Caçadas de Pedrinho. "Quem perde com isso são as novas gerações, que não terão oportunidade de conhecer este livro", diz Garcia. Ele lembra "que se trata de um clássico de grande valor, que será sempre fonte de conhecimento e cultura. Muitos livros, quando publicados numa determinada época, podem ganhar, no futuro, outra tradução para palavras e expressões, mas isso não significa racismo e preconceito". Alguns trechos da obra dizem: "Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão"; e "Não é à toa que macacos se parecem tanto com os homens. Só dizem bobagens."

Para a diretora de Ações de Incentivo à Leitura da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, no Bairro Funcionários, Região Centro-Sul de BH, Mariana de Faria, a medida é exagerada e tem ares de cerceamento. "Limitar o acesso à leitura é ser, de certa forma, preconceituoso também. Não podemos definir o que o outro pode ler. Cada indivíduo deve ter essa liberdade, que é o desejado pela própria literatura. Por meio desses aspectos, as pessoas formam senso crítico e analisam se há algo racista ou não, se quer ferir os negros ou se se trata de uma metáfora", observa Mariana, enfatizando que expressa sua opinião, e não a da instituição que dirige.

A diretora da biblioteca defende o acesso irrestrito à leitura, certa de que, no ambiente escolar, as interpretações vão depender do trabalho feito pelos educadores. "Se o professor explicar que se trata de uma expressão literária, que permite tudo e cabe ao leitor atribuir sentido ao que lê, qualquer livro é válido", afirma. Ela ressalta que Lobato é um clássico e não pode sair das prateleiras das bibliotecas das instituições de ensino. "A liberdade do leitor de se interessar por determinada obra e entender as mensagens dela partem do próprio senso crítico, que a escola ajuda a construir, mas não define", ressalta. "Várias gerações leram Caçadas de Pedrinho e não se tornaram racistas."

Na estante de casa, a ambientalista Ana Eduarda Morais, de 38 anos, mantém, com orgulho, a coleção inteira de Monteiro Lobato. O livro Caçadas de Pedrinho está entre os volumes e continuará com lugar cativo. "O Brasil é um país racista, isso faz parte da história e não há como negar. Não acho que o livro tenha que ser banido. O certo é levar o assunto para discussão. É uma forma de refletir e incentivar o pensamento crítico", afirma. Nesta sexta-feira, na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, onde há quatro exemplares da publicação, Ana Eduarda foi enfática ao dizer, entre as duas filhas, Marcela, de 8, e Maria Clara, de 6, que elas terão acesso ilimitado às histórias do personagem de Monteiro Lobato. "Caçadas de Pedrinho também fala para as crianças sobre o contato com a natureza e as brincadeiras ao ar livre."

O Estado de Minas tentou, sem sucesso, contato com a professora Nilma Lino Gomes, autora do parecer aprovado pelo CNE contra a obra de Lobato. De acordo com o conselho, apenas a conselheira falaria sobre o assunto à reportagem do EM. E informou ainda que ela estava em viagem, participando de um evento no Sul do país.



Comentários



RINALDO MARTINS

Professora , O texto é muito elucidativo e demonstra o quão a educação do Estado, após décadas, continua padecendo de gente séria. Esse governo dito popular poderia e deveria, pelo menos, ter ajudado a desenvolver o crescimento da perspectiva educacional como instrumento da conscientização popular, mas sequer isso fez, pelo contrário, como prova essa tentativa absurda de vetar Monteiro Lobato.


Me deixa muito triste um pensamento como este...Pergunto: aonde se quer chegar? Será que ninguém encherga que este de atitude "racista" est


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A Chave do Tamanho foi a minha primeira escola. Quando entrei, eu nem sabia andar ainda e lá fiquei até os sete anos de idade. Morei em Salvador durante dois anos, 1989 – 1990, e, em 1991, voltei para fazer meu último ano. Foi a única escola cujas professoras estavam mais preocupadas com o caminho até as respostas do que com o resultado final. Foi lá que eu percebi, na verdade eu percebo isso melhor hoje, que o mais importante não é o resultado, mas como chegamos até ele, como construímos nosso ser e nosso pensar desenvolvendo a nossa inteligência, nossas múltiplas inteligências na verdade. Na Chave era onde as professoras não me desmotivavam ou ficavam de “cara feia” pelo meu excesso de curiosidade. Ao contrário, me motivavam a pensar em uma mesma coisa de várias maneiras diferentes. Lá também fiz grandes amizades que tenho até hoje, professoras inesquecíveis que foram como segunda mãe como Arilza, por exemplo. Hoje, sou músico e professor de música. E nessa função de educador procuro motivar meus alunos da mesma maneira que fui motivado. Obrigado professor Lauro e toda sua família pelo que fizeram por mim e por tantos outros que pela Chave do Tamanho passaram. Deixo um grande beijo e um forte abraço a todos!

Gabriel dos Santos Macedo
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