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RECUPERAR É MAIS DO QUE EMPURRAR PARA FRENTE

30/06/2011 Ana Elisabeth Santos de Oliveira Lima


Somos uma nação criativa, disso não temos a menor dúvida. Mas criatividade, quando utilizada para fazer coisas boas dá resultados maravilhosos, e o contrário também é verdadeiro. Quando mal utilizada, a criatividade é uma arma terrível. Temos exemplos disso o tempo todo, e um deles é o assunto que quero tratar.

Trata-se da “Recuperação”, que surgiu para que as crianças recebessem uma revisão de tudo que havia sido “dado” e as crianças não tinha “recebido”. Mas nas escolas em geral virou prova de 2ª. chamada para dar as notas que os alunos precisavam para passar.

Numa escola piagetiana, qual a maneira de lidar com isso? Lidamos com a construção do conhecimento através do desenvolvimento da inteligência. Nesse ponto de vista, uma criança que tenha se saído bem em uma prova não necessariamente desenvolveu as estruturas necessárias para continuar seu desenvolvimento. Estamos atentos, portanto, ao desenvolvimento das estruturas cognitivas, e não somente a quantidade de conteúdo que o aluno tenha “absorvido”. Por exemplo: numa prova temos questões somente de conteúdos e muitas de estruturas cognitivas. Se a criança responde bem às que ela pode decorar e não se sai bem naquelas que identificam a construção dessas estruturas cognitivas, é evidente para nós que a necessidade de retomar com ela aquelas questões.

Esta atividade não significa um castigo e sim um privilegio de rever com tranqüilidade o processo, identificando onde estão as possíveis falhas no desenvolvimento cognitivo.

No entanto, o que vemos é que o conceito mudou nas escolas em geral. E para que não haja confusão, vamos mudar esse nome para não acompanharmos um conceito errado. Não queremos que a criança associe o termo “recuperação”, aplicado em condição plena na Chave do Tamanho, como uma maneira de produzir nota para “passar de ano”. Não existe promoção por exposição de conteúdo, tão somente. Evolui-se na medida em que as estruturas cognitivas evoluam e possam entender o mundo no nível de percepção máximo para aquela fase do desenvolvimento mental. O resto é paródia.

Fiquem atentos para o desenvolvimento global de seus filhos. Não deixem que eles se especializem. É muito importante que as crianças gostem das matérias em geral, de dançar, de musica, de artes. Todas estas atividades são muito importantes para que aconteça o desenvolvimento cognitivo.

A reversibilidade, que deve surgir os 7/8 anos, muitas vezes se atrasa porque a criança não dança. As danças coletivas exigem muito da reversibilidade das crianças (ver o ponto de vista do outro). Imaginem que este conceito seguirá pela vida afora de seus filhos, e será importante. Aliás, cada vez mais importante para o sucesso pessoal e profissional deles. Ninguém mais trabalha sozinho. Vamos todos estar em Dinâmica de Grupo permanente.

Estimulem seus filhos a fazerem esta revisão que não apenas de conteúdos, mas também de estruturas concretas e abstratas. Se uma crianças esta com uma defasagem no período concreto, terá enormes dificuldades de entrar no período das abstrações (11/12/13 anos). Muitos adultos não conseguem todas as estruturas abstratas e passam o resto de suas vidas trabalhando apenas com algumas. É o que Piaget chamou de compartimentalização, e que hoje os departamentos de recursos humanos identificam como ausência de competências – acarretando muitas vezes no insucesso para obtenção de empregos bem remunerados. O nosso grande esforço é tentar desenvolver todas as estruturas sem deixar lacunas. Sabemos que muitas pessoas ainda não compreendem totalmente o que significa isso, já que todo o sistema educacional de nosso país esta voltado para exames que não medem as estruturas no geral. Privilegiam os conceitos decorados, e é isso que vem atrasando o processo de desenvolvimento educacional frente ao mundo desenvolvido. Estamos no final em todas as listas de desenvolvimento e apenas na frente de alguns países africanos com um índice de pobreza chocante. Como se justifica uma economia tão desenvolvida com uma educação tão atrasada? Ficaremos para trás, não tenham duvidas. Já estamos contratando executivos da Europa e EUA por não temos, em nosso país, quem ocupe determinados cargos.

Educação é um produto muito estranho, porque embora seja vital e estratégico, parece que existe somente para cumprir um ritual. As pessoas pagam, mas não querem levar. Jamais você faria uma compra no supermercado e deixaria tudo no carrinho, depois de pagar. Com educação acontece isso. As famílias ficam revoltadas se a escola tentar dar mais do que havia se comprometido. Veja, estou dizendo oferecer MAIS!!!

É claro que a vida das famílias é organizada pelas prioridades e tempos dos adultos. E os adultos, em geral, vivem num mundo de comportamentos típicos da Era Industrial quando deveriam estabelecer prioridades a partir de valores da Era da Informação ou da Era da Biotecnologia. Valoriza-se muito ainda o conceito de “linha de produção”, com tempos e movimentos bem demarcados, para que as coisas acontecem com uma previsibilidade absoluta. Mas isso acabou. Caros e queridos pais: isso não está acontecendo nem na sua vida nem na de seus pares! O trabalho mudou, as relações mudaram, o mundo virou de cabeça para baixo... e não podemos viver na ficção do passado. Existe uma maneira de educar para o futuro, para o mundo em que nossos filhos vão viver. Um mundo dinâmico, instável e evolutivo, com desafios permanentes e demandas ainda não imaginadas. Não vamos mandá-los para esse mundo portando apenas um boletim de notas azuis, porque isso não vai ter o menor valor. Vamos encaminhá-los preparados para uma situação de “abertura para todos os possíveis”, porque isso sim irá garantir a sobrevivência deles.



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A Chave do Tamanho foi a minha primeira escola. Quando entrei, eu nem sabia andar ainda e lá fiquei até os sete anos de idade. Morei em Salvador durante dois anos, 1989 – 1990, e, em 1991, voltei para fazer meu último ano. Foi a única escola cujas professoras estavam mais preocupadas com o caminho até as respostas do que com o resultado final. Foi lá que eu percebi, na verdade eu percebo isso melhor hoje, que o mais importante não é o resultado, mas como chegamos até ele, como construímos nosso ser e nosso pensar desenvolvendo a nossa inteligência, nossas múltiplas inteligências na verdade. Na Chave era onde as professoras não me desmotivavam ou ficavam de “cara feia” pelo meu excesso de curiosidade. Ao contrário, me motivavam a pensar em uma mesma coisa de várias maneiras diferentes. Lá também fiz grandes amizades que tenho até hoje, professoras inesquecíveis que foram como segunda mãe como Arilza, por exemplo. Hoje, sou músico e professor de música. E nessa função de educador procuro motivar meus alunos da mesma maneira que fui motivado. Obrigado professor Lauro e toda sua família pelo que fizeram por mim e por tantos outros que pela Chave do Tamanho passaram. Deixo um grande beijo e um forte abraço a todos!

Gabriel dos Santos Macedo
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