Maria Elisabeth Santos de Oliveira Lima (Beinha)



Ser mulher, nordestina e membro da elite do Ceará nos idos de 1925 significava ter um destino traçado para a vida toda, a partir dos princípios que regiam a sociedade brasileira em geral, e a família nordestina em particular. Violar essas regras significava ter pela frente uma luta sem trégua, onde a têmpera seria forjada no calor de batalhas, nas mais diversas frentes. E as armas seriam testadas e aprimoradas em cada embate, até o fim. Essa foi a marca registrada de Dona Elisabeth, como era chamada por quase todos que com ela privaram, ou Beinha, apelido dado carinhosamente pelo Professor Lauro, seu marido.

Nasceu em 07 de fevereiro de 1925, no mesmo ano em que o biólogo francês Jean Piaget torna-se professor titular de Psicologia, Sociologia e Filosofia das Ciências na Universidade de Neuchâtel, sua cidade natal. Nesse ano, nasce também a primeira filha de Piaget, Jacqueline, Leon Trotsky é afastado por Stálin de suas funções como Comissário do Povo e o partido Fascista torna-se único na Itália. No Brasil, nesse mesmo ano, a Coluna Prestes começa sua marcha pelo país, sob o comando do Capitão Luiz Carlos Prestes. No campo da Educação, Anísio Teixeira realiza uma reforma educacional no estado da Bahia e é introduzida a cadeira de “Instrução Moral e Cívica”, como forma de combater o protesto estudantil contra o governo Artur Bernardes.

No âmbito regional mais próximo de seu local de nascimento, seu futuro marido, Lauro de Oliveira Lima completa em 1925 quatro anos de idade, e vê a inauguração da luz elétrica em sua cidade natal, Limoeiro do Norte. Assiste também ao incêndio na fábrica de descaroçar algodão de propriedade de seu pai, Mamede.

Tantos acontecimentos importantes no cenário do mundo em que chega Maria Elisabeth, que se integrará de maneira completa a tantos outros eventos, nacionais e internacionais, fazendo girar a roda da vida de tantas pessoas com sua tenacidade, coragem e amor.

Deixa muito cedo o aconchego provinciano de sua Fortaleza, vindo estudar no Rio de Janeiro, como cabia a uma representante da sociedade cearense de então, e faz o curso Ginasial no Colégio Sacre-Coeur de Marie. As viagens entre Fortaleza e Rio de Janeiro eram pitorescas, em embarcações luxuosas que viajavam semanas a fio costeando o imenso litoral brasileiro. A experiência de viagens embarcadas , desde a juventude, permaneceu viva em seu espírito aventureiro por toda a existência, e Dona Elisabeth procurava repeti-las sempre que possível. Cumprindo essa etapa, retornou ao Ceará para fazer o Curso Normal no Colégio Farias Brito, mas não parou por aí, como normalmente acontecia. Fez o Curso de Pedagogia na Universidade Católica do Ceará , e na mesma instituição fez o Curso de Especialização em Orientação Educacional. Enquanto freqüentava as aulas regulares, ia fazendo inúmeros cursos de extensão que aprimoram suas qualidades como Educadora, e participando ativamente da vida comunitária, preocupando-se com a indigência, principalmente das crianças.

Em meio a vida acadêmica e o universo intelectual do Ceará, inevitavelmente teve contato com Lauro de Oliveira Lima, professor de um de seus cursos, por quem nutriu admiração e afeição instantaneamente. Daí para o namoro, noivado e casamento, quase nenhuma demora. Pressentiu desde cedo que poderia ser o elemento chave para a realização das transformações propostas pelo então jovem intelectual, e fez disso uma bandeira de luta que perdurou por toda sua vida, não deixando jamais que o sonho perdesse conexão com a realidade, mesmo em condições extremas de pressão. A partir de 1947, quando casaram-se, formou-se a união que traria resultados extraordinários para as vidas de tantos que com eles privaram no campo profissional e no afetivo.

Sua natureza “mãe” manifestou-se logo, e em 1948 nascia o primogênito, Frederico, seguido por Ana Elisabeth em 1949 e Giovana Maria, em 1950. Em 1951, tendo o Professor Lauro completado 30 anos, e ela 26, nasce Adriana Flávia. Em 1952, Lauro de Oliveira Lima funda o Ginásio Agapito dos Santos em Fortaleza, e nesse mesmo ano a família recebe Ricardo Jorge, o quinto filho. Em 1953, nasce Lauro Henrique, o sexto. Na oportunidade desse parto, é recomendada pelo médico a laqueadura de trompas, como medida de segurança para a preservação de sua saúde. Inconformada com a impossibilidade de ter mais filhos, Beinha adota, em 1961, Liliana Cláudia, que veio a ser a sétima Oliveira Lima, completando assim sua prole.

No entanto, mesmo durante a gravidez de seus filhos, dirigindo o Colégio Agapito dos Santos e cuidando da família que crescia, jamais deixou de se preocupar com o problema do abandono de crianças, sendo atuante nas tentativas de ajustar necessidades e possibilidades nessa área. De maneira sempre arrojada, ia aos locais onde mães extremamente pobres abandonavam seus filhos recém nascidos, tomava-os para cuidar de suas mazelas, preparava enxoval requintado para eles e, na calada da noite, acompanhada de seus filhos ainda pequenos, ia de carro até a casa de uma família próspera, previamente estudada, e depositava uma rica cesta com o bebezinho acondicionado no meio de inúmeras fraldas, mamadeiras, lençóis e tudo o mais que fosse necessário para o trato nos primeiros momentos do acolhimento. Escondia-se no carro, um pouco afastado, e mandava que um de seus filhos batesse na porta, correndo depois para esconder-se, o que as crianças faziam com extremo prazer. Todos tocaiados, observavam se o órfão havia sido bem recebido, e se os futuros pais apresentavam sinais de alegria com a chegada do presente. Confirmado que tudo ia bem, afastavam-se silenciosamente pela noite, como mensageiros anônimos da felicidade.

Acompanhou o Professor Lauro na peregrinação rumo ao topo de sua carreira pública, desde Inspetor Seccional no Estado do Ceará (MEC) até a Diretoria do Ensino Secundário, em Brasília, para onde se mudou com toda a família. Acompanhou seu esposo também nos momentos desesperadores que se seguiram à Revolução de 64, quando o mesmo foi exonerado do cargo de Diretor da Diretoria de Ensino Secundário (abril de 1964), acusado de comunista e subversivo pelo regime militar, sendo aposentado compulsoriamente aos 43 anos de idade. Angústias não faltaram.

Fugindo da repressão, o Professor Lauro viaja numa Kombi de Brasília até Fortaleza por estradas inacabadas, ou mesmo por locais sem qualquer estrada. Consegue chegar, mas é preso por três meses, sendo submetido a um rigoroso Inquérito Policial Militar por suas supostas atividades subversivas, tendo sido inocentado por absoluta falta de provas. No entanto, esse mesmo IPM leva a família a ter que se mudar para o Rio de Janeiro, onde os depoimentos eram tomados periodicamente. Empobrecidos ao extremo, os Oliveira Lima mudam-se para a casa de um dos irmãos de Dna. Elisabeth, Amílcar, que administrava uma pequena fábrica de charutos localizada no bairro do Andaraí. Por falta de melhores acomodações, foram colocados num pequeno quarto nos fundos da construção, junto ao depósito de fumo. Suas dimensões eram tão reduzidas que Dona Elisabeth dormia numa cama, com alguns de seus filhos menores trazidos com ela, enquanto seu marido dormia numa rede estendida sobre a mesma. Pela manhã, desmontavam a rede, arrumavam a cama e, enquanto Dona Elisabeth seguia para o trabalho que havia conseguido na FUNABEM (Fundação Nacional do Bem Estar do Menor), em Realengo, o Professor Lauro sentava-se à cama, com a máquina de escrever sobre os joelhos, para datilografar seu livro “Educar para a Comunidade” e escrever seus artigos. O sustento vinha desses pequenos bicos e do salário ganho no serviço público, mas isso não durou muito, na medida em que, descoberto o parentesco, Dona Elisabeth foi imediatamente demitida da FUNABEM. Persistente, conseguiu pelas suas qualificações o cargo de Diretora de um renomado colégio católico do Rio de Janeiro, mas em bem pouco tempo foi novamente foi demitida, sem nenhuma explicação - o que já explicava tudo.

Corajosa e com o orgulho típico do nordestino, quase nada aceitou de seu pai, Alcides Castro Santos, próspero comerciante de Fortaleza, tendo preferido trazer para junto de si os filhos, alojado-os em condições precárias, mas mantendo a unidade da família e desenvolvendo em todos um senso de realidade que perdura pela vida afora, sendo uma das características marcantes de todos os Oliveira Lima.

Como se diz popularmente, Dona Elisabeth vivia como os rios, que encontram sua maior força no momento da queda, transformando a adversidade em ações objetivas para a solução dos problemas. A família saiu do Andaraí e conseguiu um apartamento em Copacabana, onde todos os filhos encontraram colégio para a continuidade dos estudos, e paulatinamente a ordem se instaurou onde antes só havia o caos. Na retomada da ação rumo a reorganização da vida, é lançado em 1966 o livro “Escola no Futuro”, de autoria do Professor Lauro, que procura oferecer uma orientação para professores de prática de ensino. Desenvolve também o curso de Dinâmica de Grupo, e passa a viajar por todo o país, ministrando treinamentos para organizações, empresas, escolas e grupos interessados em criar equipes voltadas para a produtividade em alta performance. Em 1972, quando Jean Piaget autoriza por escrito o Professor Lauro a utilizar seu nome em uma instituição dedicada a experimentar as teorias desenvolvidas por ele na área de Educação, é criado o Centro Educacional Jean Piaget, no Rio de Janeiro, e uma nova fase se apresenta na vida dessa família que vem lutando pela sobrevivência nas condições mais adversas. Sob o comando de Dona Elisabeth, a escola se fortalece cresce continuamente, tendo sido alvo incessante do interesse da mídia, das universidades e demais instituições relacionadas a Educação pelo caráter inovador do método psicogenético, desenvolvido pelo Professor Lauro de Oliveira Lima e colocado em prática por ela e outros membros da família. A nota desagradável é a constante perseguição dos órgãos de repressão, sempre atentos aos movimentos da família e provocando todo tipo de incômodo, tentando inviabilizar o crescimento de algo que entendiam como sendo contrário aos interesses da Revolução.

Na sua história de vida, consta ainda o estoicismo com que lutou contra o diabetes e o contínuo agravamento do estado de saúde através dos tempos, em decorrência de doença renal crônica, que a deixou nos últimos anos de vida com apenas parte de um dos rins. A disciplina com que cuidava de sua saúde sempre foi exemplo para todos.

Realizada como profissional, esposa, mãe e mulher, restava ainda sua realização como avó, que deu-se rapidamente em virtude do crescimento da família pelos múltiplos casamentos que foram se sucedendo ano após ano. Cuidando da escola, tratava das questões administrativas, mas era constantemente cercada pelos netos e outros alunos, que a tinham na mais alta conta, pelo carinho que devotava a todos eles. Sem perder o senso de direção com relação aos interesses da empresa, e principalmente quanto a importância do trabalho do Professor Lauro, foi a grande mentora do Primeiro Congresso Internacional de Educação Piagetiana e Primeiro Congresso Brasileiro Piagetiano, que aconteceu no ano de 1980, no Hotel Nacional (RJ) e UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Entretanto, pouco antes da data do congresso, morre Jean Piaget, que seria o maior homenageado.

A chave foi muito importante para o meu desenvolvimento tanto intelectual quanto social. Ela representou uma parte da minha vida inesquecível, conheci pessoas que me marcaram para sempre. Gostava muito do ensino, da socialização Professor - Aluno, Direção - Aluno. Métodos de ensino, passeio, enfim tudo ! Deixou muitas saudades ! Atualmente estou 2 ano do Ensino Médio, estou conseguindo atingir meus objetivos grande parte desse meu sucesso agradeço ao método que aprendi na chave.

Thiago da Silva Coutinho, 16 anos, 2º ano do Ensin
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